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QUEM É O AUTOR DA SUA AUTENCIDADE



Estou convencida de que a autenticidade nos relatos de carreira é o que diferencia uma história bem contada, memorável e que motiva de uma que traz poucas emoções, altos e baixos e não conecta. Cheguei a essa conclusão ao ouvir inúmeros executivos narrarem suas carreiras como parte do meu trabalho e ao longo da pesquisa para minha dissertação de mestrado sobre narrativas de carreira autênticas. A autenticidade, por sua vez, se revelou, ao longo das minhas pesquisas, ancorada em três pilares: pensamento reflexivo (autoconhecimento), presença emocional e autoria. Com a evolução dos estudos – e vivenciando o assunto na prática –, aprofundei-me no pilar sobre o qual encontrei menos definições já elaboradas em minha bibliografia: a autoria.



MAS O QUE SIGNIFICA EXATAMENTE AUTORIA?


Trata-se de desempenhar o papel de autor da própria carreira. De ser quem escreve e de ser a autoridade nas histórias que constroem a sua trajetória em direção a um objetivo maior. Não é por coincidência que as palavras autenticidade, autoridade e autor vêm da mesma raiz. E também de autoria. A prova da autoria é a autoridade, é o conhecer profundamente. Autoria exige um sistema de governança próprio baseado nos seus valores (intrínsecos), que orienta suas decisões de carreira e de vida em direção ao seu objetivo maior, o seu propósito. Esta palavra – propósito – passou a ser usada corriqueiramente de alguns anos para cá, mas é ainda a que me parece mais apropriada para definir o que norteia uma vida com autoria. Propósito é, em sentido literal, um objetivo, uma resolução, um sentido. Refere-se à intenção de realizar algo que seja ao mesmo tempo significativo para você e consequentemente para o universo além de você. Ter um propósito e ser capaz de comunicá-lo é, portanto, um dos principais propulsores à autoria. E, consequentemente, para uma conduta mais autêntica.


"Propósito é a intenção de realizar algo que seja ao mesmo tempo significativo para você e consequentemente para o universo além de você."


NÃO EXISTE HISTÓRIA SEM OBJETIVO


O primeiro passo para a autoria é saber qual é o seu objetivo maior. Embora você possa expressar o seu propósito de diversas maneiras em contextos diferentes, um bom exercício é refletir sobre sua história e tentar identificar um padrão presente que dê sentido a ela. Outra forma é investigar o porquê você faz o que faz e o como, ou ainda, qual sua contribuição e seu impacto. Os pontos fortes e as paixões que você traz à mesa, não importa onde esteja sentado. É o que todos os que estão perto de você reconhecem como único e o que mais perderiam se você fosse embora. É quem você não pode deixar de ser. Descobrir o seu propósito exige um mergulho interno. Paradoxalmente, é difícil passar por esse processo sozinho, sem o apoio de um interlocutor que enxergue e escute de fora – sem julgamento – que vai ajudá-lo a identificar e discernir o que você não consegue ver, mas, ainda assim, guia suas escolhas. Porque, diferentemente disso, somos constantemente bombardeados por mensagens sobre o que deveríamos ser e fazer. Parte do trabalho que desenvolvo hoje é justamente ajudar as pessoas na jornada para descobrir o seu propósito e expressar isso em uma frase que as guiará por um longo tempo pela vida.


“Uma causa é, na verdade, a expressão do propósito – e não o propósito em si.”


As pessoas que, com meu trabalho, pude ajudar a descobrir seu propósito mostraram-se fascinadas no momento em que passado, presente e futuro passam a fazer sentido, conectados por um fio condutor que interliga toda a sua trajetória. A descoberta do que há por trás das escolhas ajuda a fazê-las de maneira mais consciente daquele ponto em diante. Meus clientes relatam que ter claro o seu propósito os ajuda a tomar decisões com mais convicção, como dizer não para trabalhos ou atividades desalinhadas com o que querem para a vida e estar mais disponíveis para aquilo que vai ao encontro do que desejam.


“O primeiro passo para a autoria é saber qual é o seu objetivo maior.”



PROPÓSITO NÃO É CAUSA


Uma confusão comum é entender propósito como causa. Uma causa é, na verdade, a expressão do propósito – e não o propósito em si. Assim como a empresa deve ser o lugar onde as pessoas expressam seu propósito. Pessoas guiadas por propósito, quando em empresas que permitam sua expressão, são mais propensas a assumir papéis de liderança, a ficar mais tempo em seus papéis, a receber melhores avaliações de desempenho e a promover sua empresa como um bom lugar para trabalhar. Elas têm um maior nível de realização no trabalho. Querem sentir que o trabalho que fazem causa impacto – seja para seus clientes, colegas, empresa ou para a sociedade como um todo. Apesar da crescente discussão na imprensa, na academia e nas empresas sobre a importância de se ter um propósito, todos deveriam encorajar efetivamente para que cada pessoa realmente busque, traduza em palavras e coloque em ação seu propósito, e assim, possa impactar e contribuir genuinamente, escolhendo a autenticidade.



CONHECIMENTO MUDA AS PESSOAS E PESSOAS TRANSFORMAM O MUNDO


Um dos meus clientes, após anos de preparo em paralelo à sua carreira corporativa, inclusive com doutorado, tornou-se também professor recentemente. Na primeira aula, sentiu-se “meio duro”, como me contou depois. Aquela sensação de trava ficou na cabeça dele. “Por que me senti assim?”, perguntou-se durante algum tempo. Até que abriu a caixa de e-mail e se deparou com uma mensagem minha, na qual eu havia escrito um rascunho da declaração de propósito que ele fizera durante o nosso último encontro: conhecimento muda as pessoas e pessoas transformam o mundo. “Foi por isso que decidi ser professor!”, lembrou-se.


Então, modificou o plano inteiro e a forma da aula seguinte. “No segundo encontro com os alunos fui eu mesmo e me senti bem. Sabia por que estava ali e deixei claro, mesmo sem dizer que aquele era o meu propósito.” Ele descreveu a descoberta como uma âncora que não o deixa à deriva do que lhe é mais importante. Durante a vida inteira, ele – assim como todos nós – sabia qual era o seu propósito, mesmo achando que não. Estava ali, sempre esteve. Então, a partir do momento em que o esclareceu, seguiu em frente, com um novo nível de compreensão cada vez mais alinhado ao que o move essencialmente.


“Ele descreveu a descoberta como uma âncora que não o deixa à deriva do que lhe é mais importante.”


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