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UM NOVO RENASCIMENTO PÓS PANDEMIA



Hoje o meu pensamento voltou a girar em torno do Novo Renascimento. A primeira vez que tive esse insight foi durante uma sessão de coaching com um cliente no qual ele me questionou se era melhor ser um generalista ou um especialista. Parei para refletir, então respondi com uma associação livre que veio à minha cabeça. Pensei na imagem do homem vitruviano. Durante o Renascimento, passamos por uma abertura do mundo para as múltiplas expressões e uma expansão das possibilidades laborais e criativas. Foi o tempo de Leonardo da Vinci, engenheiro, arquiteto e pintor em uma só vida. Com a Revolução Industrial e as novas técnicas de produção, voltamos à especialização, metaforizada de maneira brilhante pelo personagem de Charles Chaplin em Tempos Modernos, que apertou parafusos até entrar em colapso.


Tivemos essa conversa em 2016. As inúmeras possibilidades ao alcance de cada um e as inovações em todas as esferas tinham um quê de Renascimento. Como o homem renascentista, o moderno busca ser um polímata, ou seja, aquele que domina diversas áreas do conhecimento. Há quem pense que nos dias de hoje precisamos ser super especialistas e há quem pense no generalista especialista, meu favorito.

Voltando para o Novo Renascimento, certamente, eu não era a primeira pessoa a olhar sob esse ponto de vista. Também vale dividir que essa minha associação não me causou muita surpresa porque a essa altura eu já havia feito uma busca profunda sobre o meu propósito e ele compreende justamente essa dança entre o velho e novo.

A melhor referência que eu tinha de alguém consistente que estudava esse momento de transformação era Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial. Ele cunhou o termo “Quarta Revolução Industrial", que dá título ao seu livro, prevendo o impacto das mudanças atuais em áreas como ciências, economia, negócios, sociedade e pessoas. Segundo Schwab, a primeira revolução se caracterizou pelo uso da força da água e do vapor para mecanizar a produção. A segunda usou eletricidade para criar a produção em massa. A terceira se beneficiou da eletrônica e da tecnologia da informação para automatizar a produção. Agora, a quarta, iniciada em meados do século 20, seria caracterizada pela fusão de tecnologias e pelo fim das barreiras claras entre as esferas física, digital e biológica. Para o pesquisador, o que nos separa da Terceira Revolução Industrial é a velocidade dos avanços. Passamos a inovar em ritmo exponencial. Além disso, as inovações estão impactando todos os tipos de indústria e exigindo a transformação de sistemas inteiros de produção e governança.


Me apeguei ao paralelo que havia traçado com o Renascimento. Foi buscando outros autores que eu encontrei o livro The Age of Discovery, escrito por Ian Goldin, professor da Universidade de Oxford, e Chris Kutarna, fellow da Oxford Martin School. Os dois reuniram uma grande quantidade de fatos e dados comparando a era de da Vinci com o início do novo milênio. A conclusão é a de que estamos diante de um momento muito parecido com a Europa do século 15. No livro, Goldin e Kutarna descrevem que, há 500 anos, as pessoas no mundo estavam se conectando de maneira sem precedentes. Gutenberg inventou a prensa, o que permitiu a reprodução e expansão do conhecimento, e Colombo descobriu o Novo Mundo, alterando a noção de fronteiras geográficas. Após a peste negra ter devastado os países europeus, a população se recuperava, com aumento da riqueza, acesso à saúde e à educação.


Os choques de mudança hoje acontecem nas mesmas proporções. A internet conectou 3 bilhões de pessoas. A globalização diminuiu as fronteiras. Somos a primeira geração majoritariamente urbana. Os cientistas vivos somados são em maior número do que todos os cientistas que viveram até 1980. A expectativa de vida aumentou mais nos últimos 50 anos do que nos 1.000 anteriores. Deciframos o genoma humano, inventamos a impressão 3D, descobrimos planetas parecidos com a Terra.


Fiquei feliz de encontrar o The Age of Discovery e saber que alguém estava pensando como eu. Voltei ao livro de Schawb para buscar mais uma vez algo sobre o renascimento, para minha surpresa, encontrei um trecho em que ele parecia ler meus pensamentos: “Acredito firmemente que a nova era tecnológica, caso seja criada de forma ágil e responsável, poderá dar início a um novo renascimento cultural que irá permitir que nos sintamos parte de algo muito maior que nós mesmos – uma verdadeira civilização global”.


No início deste ano, o futurista Gerd Leonhard também fez essa analogia com o novo renascimento e apresentou seu Renascimento2 colocando o florescimento humano de volta ao centro desse universo em rápido crescimento, de co-criar um mundo com a tecnologia a serviço do ser humano e do planeta. Ele diz que deverá ser um Novo Renascimento , na qual nossos valores humanos têm prioridade sobre valores puramente monetários onde o que ele gosta de chamar de 'Capitalismo Sustentável' pode realmente se tornar viável - uma nova lógica econômica baseada em 4 linhas: Pessoas, Planeta, Propósito e Prosperidade. O Fórum Econômico Mundial em sua iniciativa, The Great Reset, tem chamado esse capitalismo de Stakeholder Capitalism, Capitalismo das Partes Interessadas.

Já vinhamos passando por crises econômicas, aumento da desigualdade, extremismo político e desastres naturais. Agora temos uma pandemia, o que não me deixa fugir da analogia da peste negra e com o renascimento. Claro que não explica completamente por que o Renascimento ocorreu, mas muitos apontam a relação. Parecida com a relação que muitos estão fazendo entre a pandemia e o Novo Renascimento.


Um Novo Renascimento ou um Novo Capitalismo são ideias diferentes, mas todas buscam extrair sentido de uma realidade mutante e indicar para as pessoas e organizações quais são os desafios de evolução no horizonte. Em comum, temos a ideia de que o mundo requer um nível maior de desenvolvimento cognitivo para ampliar a capacidade de suportar múltiplas perspectivas e pensar novas possibilidades. Assim, evoluímos. Ou será quer vamos retroceder?


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